quinta-feira, abril 27, 2006

Conhecendo a crise



Para estudarmos melhor essa nossa crise de múltiplas faces, devemos adotar uma perspectiva mais ampla e ver nossa situação no contexto da evolução cultural humana. Substituir a noção de estruturas estáticas por padrões dinâmicos de mudança. Vista desse ângulo, a crise apresenta-se como um aspecto da transformação. Os chineses, que sempre tiveram uma visão inteiramente dinâmica do mundo e uma percepção aguçada da história, parecem estar bem cientes dessa profunda conexão entre crise e mudança. O termo que eles usam para "crise", wei-ji, é composto dos caracteres: "perigo" e "oportunidade".


Os sociólogos ocidentais confirmaram essa intuição antiga. Estudos de períodos de transformação cultural em várias sociedades mostraram que estas são tipicamente precedidas por uma variedade de indicadores sociais, muitos deles idênticos aos sintomas de nossa crise atual. Incluem uma sensação de alienação e um aumento de doenças mentais, crimes violentos e desintegração social, assim como um interesse maior na prática religiosa. Esses indicadores tendem a manifestar-se de uma a três décadas antes da transformação central.


Essas transformações são etapas essenciais ao desenvolvimento das civilizações, que, ao que parece, passam todas por processos cíclicos semelhantes de gênese, crescimento, colapso e desintegração.


Entre os mais notáveis estudos dessas curvas de ascensão e queda, cumpre citar a importante obra A study of history, de Arnold Toynbee. Toynbee vê o padrão básico da gênese de uma civilização como um padrão de interação "desafio-e-resposta". Um desafio do ambiente natural ou social provoca uma resposta criativa numa sociedade ou grupo. Essa sociedade continua a crescer quando sua resposta bem-sucedida ao desafio inicial gera um ímpeto cultural que a leva para além de um estado de equilíbrio, que então se rompe e se apresenta como novo desafio. E assim o padrão de desafio-e-resposta é repetido sucessivamente.


O ritmo do crescimento cultural parece estar relacionado com processos de flutuação e é considerado parte da dinâmica do universo. Segundo os antigos filósofos chineses, todas as manifestações da realidade são geradas pela interação dinâmica entre dois pólos de força: o yin e o yang. E também os filósofos dos tempos modernos expressaram a idéia de um ritmo universal fundamental. Hegel entendia a história humana como um desenvolvimento em espiral que parte de uma forma de unidade, passa por uma fase de desunião e desta para a reintegração num plano superior.


Bibliografia: Capra, Fritjof: O Ponto de Mutação, 1982

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