quinta-feira, março 30, 2006

Ponto de Mutação


"Ao término de um período de declínio sobrevém o ponto de mutação. A luz que fora banida ressurge. Há movimento, mas este não é gerado pela força... O movimento é natural, surge espontaneamente. Por essa razão, a transformação do antigo torna-se fácil. O velho é descartado, e o novo é introduzido. Ambas as medidas se harmonizam com o tempo, não resultando daí, portanto, nenhum dano."

I Ching


As últimas décadas vêm registrando um estado de profunda crise no planeta. Crise complexa, cujas questões afetam todos os aspectos de nossas vidas: qualidade do meio ambiente, das relações humanas, da economia, tecnologia, política. Crise de dimensões intelectuais, morais e espirituais.

Milhões de pessoas morrem de fome, faltam os serviços básicos de saúde, água potável. Produtos tóxicos contaminam nossos alimentos, doenças nutricionais e infecciosas são as maiores responsáveis pelas mortes no "Terceiro Mundo" e doenças degenerativas, sobretudo problemas cardíacos, câncer e derrame flagelam os países ricos. Depressão aguda, esquizofrenia e outros distúrbios de comportamento brotam de uma deteriorização paralela de todo nosso ambiente social. Desintegração total: crimes violentos, acidentes e suicídios, aumento do alcoolismo e do consumo de drogas. Desemprego maciço e uma distribuição grosseiramente desigual de riqueza e renda. Aff...

Diante dessas múltiplas ameaças de esgotamento com as quais convivemos, os políticos já não sabem para onde se voltam para minimizar os estragos e o perigo do caos eminente. Eles, a mídia e nós argumentamos a respeito de prioridades - tratar primeiro da crise energética ou combater o desemprego? Controlar a inflação ou construir novos presídios? Investir em educação ou reformular as leis? - e raros parecem se dar conta de que todos esses problemas são faces de uma só crise.

Um sinal impressionante do nosso tempo é que muitos dos chamados "especialistas" já não estão capacitados a lidar com os problemas urgentes que surgem em suas respectivas áreas. Economistas incapazes de entender a inflação, oncologistas confusos acerca das causas do câncer, psiquiatras mistificados pelos antidepressivos, polícia impotente em face da criminalidade. Nos Estados Unidos, os presidentes costumavam recorrer a pessoas do mundo acadêmico em busca de assessoramento, diretamente ou através dos brain trusts e think tanks criados para aconselhar o governo em várias questões políticas. Essa elite intelectual quase sempre esteve de acordo sobre o âmbito conceitual básico subentendido em seus pareceres. Hoje, no entanto, esse consenso deixou de existir.

O que vem acarretando essa crise de idéias é o fato de que a maioria dos intelectuais subscreve percepções estreitas da realidade, inadequadas para enfrentar os desafios da conjectura atual. Nossos problemas são sistêmicos, não podem ser estudados de forma fragmentada, estão intimamente ligados e interdependentes. Uma resolução só poderá ser implementada se a estrutura da própria teia for mudada, o que envolverá transformações PROFUNDAS em nossas intituições sociais, nossos valores e idéias.

Nestes próximos anos não vai dar para não mexer nisso!

Referência: Capra, Fritjof: O Ponto de Mutação, 1982 (meio chato de ler, mas ainda assim muito bom, rs...)

que friozinho hoje!

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