
Jeri é fantástica. E assistir o pôr-do-sol de cima da duna que leva esse nome é coisa sem palavras... Você sobe e fica lá do alto olhando meio bobo o cenário exuberante. Vira para um lado, vira para o outro. Respira fundo e prazerosamente algumas vezes, enchendo os pulmões de energia renovada. Depois caminha, brinca de deixar pegadas, desce correndo e se equilibrando, escorrega... Molha os pés na água e olha lá de baixo aquela montanha que muda de forma com o vento. Sente-se pequeno diante de tanta beleza e magnitude. Mas sente-se também parte dela. Na nova subida os músculos das coxas trabalham com afinco e você ri do seu despreparo físico. Quando lá no topo novamente, senta e recupera o fôlego para então ficar horas e horas conversando inspirado. Deita, se ajeita na areia e percebe que alguns dos intervalos de silêncio dizem mais que os preenchidos pelas vozes.
O vilarejo fica a aproximadamente 300 quilômetros de Fortaleza: Jericoacoara. Sem dúvida paixão à primeira vista. E os atrativos não ficam só por conta da extrema beleza natural de suas paisagens. A doce simplicidade e gentileza do povo também deixam suas marcas.
Todas as suas poucas ruas são de areia (coisa como 5 vias principais e no máximo umas 20 ruelas). Não tem caixas eletrônicos e a circulação de veículos motorizados é controlada. Até o início de 1998 a energia elétrica vinha de geradores. Hoje já existe uma rede elétrica subterrânea, que alimenta apenas as casas, mas por opção dos moradores, sem postes nas ruas para preservar a iluminação natural proveniente da lua e das estrelas. Realmente postes e fios não combinariam com o charme do lugar. Sua ausência fazem das noites de Jeri um espetáculo à parte.

Das pessoas que conheci por lá algumas marcaram mais. Mariana aparecia todas as tardes depois da escola vendendo cocada. Sabia que eu gostava das brancas e as separava pra mim. Era nesse momento que nós a adotávamos por algumas horas. Ficava ali na rede com a gente, contando suas descobertas e mostrava na mão pequena os 5 anos que tinha. Gostava de mexer no meu cabelo. Eu fazia trancinhas no dela, e ela orgulhosa mostrava que podia fazê-las no meu também. Disse que eu ficava muito bonita com as tranças e que precisávamos arrumar uma fitinha para amarrar na ponta. No nosso último dia por lá apareceu chorando, o que fez a despedida mais difícil. Nos contou que a mãe ficaria brava por ela ter vendido poucas cocadas. Aquilo nos machucou também.
João era menino para casar, 16 anos, corpo de atleta, inteligente e um perfeito cavalheiro. Era nosso guia local. Nos contou que dava aulas de natação em Jijoca e estudava à noite. Era fã da Deborah Bloch desde que ela apareceu em Jeri uma vez com o Olivier. Nos levou até Pedra Furada, abria os côcos pra gente e nos falava sobre causos da vila e de como o lugar mudava de dezembro a fevereiro. A cidade enchia, mas ele gostava do movimento, além de garantir a renda necessária para viver alguns meses, fazia com que ele conhecesse muita gente e aprendesse mais sobre o mundo.
As noites de Jeri, além de restaurantezinhos gostosos, têm dois clássicos: o Forró e a famosa Padaria Santo Antonio. O Forró abre praticamente todos os dias na alta temporada (acho que menos segunda), mas como era "baixa" tivemos que aguardar o sábado para conhecer. João foi conosco até lá, apresentou os amigos e nos fez companhia a madrugada toda. Quando fui pedir uma música para o "Dj" local, conheci Jaciara, que tomava conta da casa. No fim da conversa ganhei hospedagem para o verão, e emprego por toda a temporada. Era só eu aparecer por lá. A oferta foi tão graciosa, que mesmo fora dos planos me fez pensar na idéia. Por que não? Saindo do forró fomos conferir a padaria, que abre das 2h às 6h para atender notívagos com fome. Tem deliciosos pãezinhos de côco, de banana ou de queijo: tudo bem caseirinho e você é atendido pelo próprio “seu” Antonio. Demorou um pouquinho para sermos servidos, mas a espera não foi sentida. Aguardando nas mesas e sentindo o cheiro bom que vinha do forno à lenha, todos parecíamos primos esperando pelo bolo da vó. Nos distraíamos trocando dicas sobre os passeios. A chegada da fornada quentinha foi como uma benção, agradecidos comemos em silêncio e com sorriso no rosto. Ouvi dizer que o estabelecimento agora está à venda. Poxa, realmente uma pena, um dos melhores pontos de encontro da vila.
Fotos 1: by Dani e Deca
Fotos 2: www.santuarios.com.br







