quinta-feira, janeiro 10, 2008

O observador a observar-se...

"Tenho a possibilidade de olhar para aquela casa SEM o observador, de modo que o observador seja a coisa observada e, por conseguinte, não haja conflito nenhum? (Se você olha uma coisa qualquer, uma vaca por exemplo, você é “um” ser psicológico em constante movimento, e você observa com as suas memórias, reconhece com elas, este é seu conteúdo mental arquivado, isto é o que entra em relação com o observado deturpando o que se vê. Logo, se o passado não interfere na observação, você - como consciência, SEM conteúdo algum - vê claramente, fielmente o objeto exterior sem movimento algum interior, sem o movimento psicológico de coisas mortas, de arquivos mentais.) ...Podeis olhar para uma coisa SEM pensamento? Isso não significa ficar dormindo, num estado de vacuidade! Podeis olhar aquela árvore, aquela mulher ou aquele céu do sol poente, sem que nisso o observador (memórias, valores, opiniões reagindo) esteja a tomar parte a julgar? Isto é, quando olhais uma flor, um homem, uma criança, estais olhando o objeto ou estais olhando a imagem (memórias, valores, opiniões reagindo) que dela tendes? Ao olhardes vossa esposa, vosso filho, vosso vizinho, tendes imagens deles, constituídas de lembranças... Ao olhardes aquela flor, não a estais olhando com os vossos olhos, porém a estais olhando (memórias, valores, opiniões reagindo) através da palavra, do conhecimento botânico que tendes da flor, do nome que lhe dais; por conseguinte, não estais "olhando". Mas, se puderdes olhar uma coisa SEM lhe dar nome nem avaliá-la, porém observando-a realmente, não há então NENHUM observador. Isto é, se sois capaz de olhar vossa ambição, vosso ódio ou vossa cólera - que acontece? Justificais o que estais vendo! (Introduzis o passado pela mensuração, deturpando tudo que se observa em si mesmo, interiormente.) Dizeis que todo mundo a tem, ou condenais, porque tendes certos conceitos morais relativos ao tema. Consequentemente, NUNCA entrais em contato com o FATO. Sois sempre a entidade que diz "Eu sou ambicioso": "Eu" e a ambição somos duas coisas diferentes! Mas é o próprio observador que é a ambição! Se fordes capazes de olhar o FATO (qualquer do cotidiano, por instantes, frações micronéssimos de segundos, sem NADA registrar, logo descontinuamente, sem sequer ter este ou qualquer outro objetivo) - ambição, violência etc. - diretamente e não por meio de palavras, de fórmulas, conceitos, imagens, não há então observador (passado) NENHUM e, por conseguinte, nenhuma dualidade: só há o FATO e, assim, NÃO EXISTE conflito. Dessarte, quando olhais o FATO, quando só há a observação desse fato, então, por não haver conflito, tendes a ENERGIA NECESSÁRIA (na ausência de conteúdo mental algum em movimento) para olhar, observar, AGIR (reagir é passado, pertencente ao acúmulo de ação pretérita, o carma). Quando, pois, o observador é a coisa observada e começais a perceber a dualidade com seu cortejo de dores, ânsias, conflitos, tormentos, a dualidade PERDE TODA a sua significação e vitalidade. (abandona-se a roda da vida, é a queima do carma, a renuncia ao pensar psicológico acumulado, dores, mágoas e ressentimentos). Estudo da parte final da palestra de Krishnamurti em 27 de fevereiro de 1966 em Bombaim, Índia – págs. 138/141 do livro “VIAGEM POR UM MAR DESCONHECIDO” – Ed. Três – 1973 – tradução de Hugo Veloso
Foto by Gregory Colbert - fotógrafo e cinegrafista canadense

Nenhum comentário: