domingo, julho 13, 2008

"memórias" ou "do acaso"

"Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão..." "Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. (...) a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas." "Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece." "Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia. Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando (...) com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado..."

trechos de Caio Fernando Abreu
Dois ou três almoços, uns silêncios - Fragmentos disso que chamamos "minha vida"
(Publicado no jornal "O Estado de S. Paulo", 22/04/1986)

5 comentários:

Janus S. disse...

So true.

Adriano DiCarvalho disse...

Caio Fernando Abreu já não me surpreende mais sabia! Já espero o melhor. E o melhor ele sempre nos dá. Às vezes com mel e outras às avessas, mas sempre nos dá. Adoro-o. E a ti também, por isso, deixei mais um presentinho pra ti lá viu!

Bjão.

Camila disse...

Nossa que blog bacana!
Super bonito e com conteúdo!
Parabéns.
Beijo
=)

tatit disse...

tava pensando como é bonito aqui. essa roda-gigante da foto e a que é você. eu queria ser também. mas por mais que tente, sempre volto a ser montanha-russa.
acho que sou 20% carrinho de bate-bate (cabeçuda que sou), 10% roda-gigante e 70% montanhão.

...

e às vezes cansa tanto.

Dani disse...

Pois é, Janus, real demais... me espantei!

Dri, o Caio é mesmo fantástico, em tantos e tantos textos dele eu me vejo ali, perdida ou achada no meio das letras tão bem colocadas, com informalidade, naturalidade, humor e poesia ao mesmo tempo. E também te adoro, moço! Obrigada pelo presentinho! Beijão

Olá, Camila! Obrigada pela visita e pelo elogio! Seja muito bem-vinda... Vou lá conhecer o seu cantinho. Beijocas pra você!

Tatit!!! Bonito é você falando desse jeito! Fiquei toda boba aqui! Também sou um pouco carrinho de bate-bate e montanha-russa... Mas a roda-gigante sempre me encanta! Volte quando quiser pra gente dar voltas nos brinquedos todos! rs... Beijos!