domingo, outubro 12, 2008

saudade


Bateu uma saudade... Daquelas. Saudade de compartilhar meus dias com você. De contar do edredon novo, de contar que choveu hoje por aqui, de te mostrar cada coisa bonita que eu vejo. De ter seu colo e seu cafuné quando o coraçãozinho fica apertado, ou simplesmente porque o dia amanheceu cinza. Lembrei daquela carta do Caio pro Zézim. Tinha colocado um trechinho aqui outro dia.

"Zézim, ninguém te ensinará os caminhos. Ninguém me ensinará os caminhos. Ninguém nunca me ensinou caminho nenhum, nem a você, suspeito. Avanço às cegas. Não há caminhos a serem ensinados, nem aprendidos. Na verdade, não há caminhos." "Mais: já pensei, sim, se Deus pifar. E pifará, pifará porque você diz ”Deus é minha última esperança". Zézim, eu te quero tanto, não me ache insuportavelmente pretensioso dizendo essas coisas, mas ocê parece cabeça-dura demais. Zézim, não há última esperança, a não ser a morte. Quem procura não acha. É preciso estar distraído e não esperando absolutamente nada. Não há nada a ser esperado. Nem desesperado. Tudo é maya/ilusão. Ou samsara/círculo vicioso. Certo, eu li demais zen-budismo, eu fiz ioga demais, eu tenho essa coisa de ficar mexendo com a magia, eu li demais Krishnamurti, sabia? E também Allan Watts, e D. T. Suzuki, e isso freqüentemente parece um pouco ridículo às pessoas. Mas, dessas coisas, acho que tirei pra meu gasto pessoal pelo menos uma certa tranqüilidade. Você me pergunta: que que eu faço? Não faça, eu digo. Não faça nada, fazendo tudo, acordando todo dia, passando café, arrumando a cama, dando uma volta na quadra, ouvindo um som, alimentando a Pobre. Você tá ansioso e isso é muito pouco religioso. Pasme: acho que você é muito pouco religioso. Mesmo. Você deixou de queimar fumo e foi procurar Deus. Que é isso? Tá substituindo a maconha por Jesusinho? Zézim, vou te falar um lugar-comum desprezível, agora, lá vai: você não vai encontrar caminho nenhum fora de você. E você sabe disso. O caminho é in, não off. Você não vai encontrá-lo em Deus nem na maconha, nem mudando para Nova York, nem." "Zézim, me dê notícias, muitas, e rápido. Eu não pensei que ia sentir tanta falta docê. Não sei quanto tempo ainda fico, mas vou ficando. Quero escrever mais, voltar à praia, fazer os documentos todos. Até pensei: mais adiante, quando já estivesse chegando a hora de eu voltar, você não queria vir? A gente faria o mesmo esquema de novo, voltaríamos juntos." "Isso é o que te desejo na nova década. Zézim, vamos lá. Sem últimas esperanças. Temos esperanças novinhas em folha, todos os dias. E nenhuma, fora de viver cada vez mais plenamente, mais confortáveis dentro do que a gente, sem culpa, é. Let me take you: I’m going to strawberry fields."

Vem comigo? Não pensa nada, vem.
Tem dia que fico muito quietinha, tem dia que falo muito, você já conhece... acho que você me entende.


Foto: Autor desconhecido
Trechos de Caio Fernando Abreu

3 comentários:

Fernando Carrara disse...

Com a suavidade de sempre!

Passei pra te deixar um beijo e dizer que mesmo não comentando, estou sempre por aqui.

Beijo Dani

Em Construção... disse...

Que lindoooooo
ameiii
beijus

Autor disse...

Comecei a ler o "post" e pensei: Gente, quem é essa moça ? Quem é essa Dani ? Seria o Caio ? Seria o Zézim ? Seria ambos ou nenhum deles ?
Não ! - eu repensei - é um overflow de idéias, emoções, divagações, devaneios e por que não... amor.

Escrevendo agora esse comentário eu me perguntei: Mas de onde ela veio ?
Já sei ! - eu respondi - ela não veio de lugar algum; sempre esteve aqui, lá e acolá, eu é que estava distraído fitando as ondas do mar.

Estou admirando muito seu conteúdo, moça. Ele me inspira...


Friendly regards,
Fabio.